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quinta-feira, 20 de março de 2014

Recordações - Viagem a Cabinda

Recordações - Foi no início dos anos 70. Encontrava-me em Angola, concretamente em Luanda, havia cerca de três anos, quando visitei Cabinda.
 
O Rallye do BCA, em cuja realização participei activamente, através de inclusão dos cálculos do Rallye em computador, proporcionou-me contactos e amizades com várias personalidades ligadas ao desporto automóvel.
 
Em 1971, fui convidado para, integrado na equipa de cronometristas e outros técnicos desta matéria, do ATCA (Automóvel e Touring Club de Angola), colaborar na cronometragem do “Circuito de Cabinda”.
 
Era a segunda vez que andava de avião. A viagem de ida, decorreu num Douglas C47, avião que era uma verdadeira relíquia. Pequeno, com dois motores a hélice, muito barulhento e sobretudo com aparente fragilidade. Pela pequena janela, tive a oportunidade de espreitar um espectáculo de rara magnitude e beleza. Viajávamos junto à costa atlântica quando avistei, vindo da direita, do grande continente africano, o rio Zaire ou Congo, nome que aprendemos na escola. De largura descomunal, entrava pelo Atlântico deixando nele um rasto de cor de barro visível por alguns quilómetros.
 
Foi uma viagem muito agradável. O Circuito correu bem. Como em todos os outros, houve vencedores e vencidos, festa e camaradagem.
 
Tive, também, oportunidade de penetrar na magnífica floresta do Maiombe, e numa das noites, assisti a uma rebita. Gentes e música em tudo diferentes do que tinha conhecido até àquele momento e que me deixou gratamente impressionado. Para mim, era tudo muito estranho, de uma beleza desconhecida, mas muito bela, tanto pelas pessoas, como pelas paisagens.
 
A volta a Luanda, realizou-se num Fokker F-27 Friendship 200, este mais moderno, com maior comodidade e sobretudo menos ruidoso.
 
Desta viagem trouxe uma recordação, que ainda hoje a conservo. Comprei na rua, um magnífico quadro pintado a óleo, por sinal, muito bem pintado, na minha opinião, que representa bem aquela bela região.
 
Saudades não me faltam. Passados tantos anos, não quero deixar de reparti-las. Abraço a Todos.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Um soneto de Rui de Noronha - Moçambique


[SOM]

ANTÓNIO RUI DE NORONHA
( 1909 – 1943 )

PRECURSOR DA POESIA MOÇAMBICANA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

"ANTÓNIO RUI DE NORONHA nasceu em 28 de Outubro em Lourenço Marques, filho de Roque das Neves Noronha, despa­chante oficial de origem goesa e de Helen Sophia Bilankulu, de origem zulu, nascida na África do Sul... Depois de concluir o quinto ano no Liceu 5 de Outubro, (mais tarde Liceu Salazar e hoje Escola Secundária Josina Machel), Rui de Noronha fez con­curso para os Caminhos de Ferro, em que obteve boa classifica­ção, tendo sido colocado como aspirante. A sua estreia literária teve lugar aos dezassete anos em O Brado Africano (1918-1975) .... Assinou com os nomes de António Rui de Noronha, Rui de Noronha ou as iniciais R.N. Usou ainda os pseudónimos de Ritmo Negro, Cancarrinha de Aguilar, Can­carrinha, Xis Kapa… Legou um obra inolvidável, dispersa no "O Brado Africano", "O Programa dos Teatros", - Miragem, "Anseio", "O Emancipador", "Notícias", "África", que retratam, o poeta, o pensador, o activista social, a primeira voz... de Moçambique ".


(in “África Surge et Ambula” – Livro e CD )

domingo, 21 de janeiro de 2007

Um poema de Alda Lara - Angola





(ALDA LARA - Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque.Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império.

Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Em memória

É certo que a descolonização já passou há muitos anos, mas as lembranças que temos dessa época e do passado anterior, essas parece que passaram ontem como um filme, muito depressa. E se pensarmos rapidamente encontramos histórias do nosso dia a dia tão interessantes que é pena serem guardadas na memória

Quando trabalhei na dependência de S. Paulo em Luanda, tinha um colega infelizmente já desaparecido chamado Belmiro Ferreira Pinto. Era uma figura muito querida por todos que o conheciam, muito polémico em gastos, só gastava o indispensável e necessário furtando-se sempre ao supérfluo. Das muitas situações que assisti tenho uma que entendo como das melhores, mais engraçadas e curiosas.

Um belo dia apareceu na dependência um casal que queria falar com o Belmiro. Recebeu-os numa pequena sala de estar da dependência e aí estiveram bastante tempo a conversar. Sabíamos que o casal vinha falar com o Belmiro para lhe tentar vender um andar e começamos a ficar admirados com a demora, pois sempre que alguém o abordava para vendas, era rápida a conversa, mas nesta não.

Mais de uma hora depois, o Belmiro muito sorridente despediu-se do casal com um sorriso muito aberto, acompanhou-os à porta e despediu-se. Perguntamos-lhe se tinha comprado algum andar e ele disse que não, sorriu e foi trabalhar.

No dia seguinte apareceram novamente na dependência os mesmos senhores acompanhados de mais duas pessoas, entraram para a pequena sala e o Belmiro foi ter com eles levando alguns papéis. Estiveram a falar bastante tempo, sempre com sorrisos, vimos que houve assinaturas em vários papéis e dissemos uns para os outros, pronto já deram a volta ao Belmiro.

Acabada a reunião os promotores saíram, despediram-se e foram à vida. Aqui perguntamos: Então Belmiro quanto custa a casa. Riu-se e com o ar mais natural do mundo fez este comentário, comprei uma casa! Só se estivesse maluco! Vendi foi um terreno.

Foi um facto que aconteceu, do qual me lembro e que merece ser recordado até para lembrar este colega infelizmente falecido.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Estudante-trabalhador? Ou trabalhador-estudante? (1)

Já dei conta neste espaço de alguns dos primeiros momentos da minha iniciação profissional no BCA - o meu primeiro trabalho (sim... trabalho, mais do que emprego!).
Como então disse, comecei a trabalhar em 1963 naquela que foi a sede inicial do Banco e o seu primeiro "Balcão".
E relatei as "nossas" disputas para vermos quem era o mais rápido a manipular as máquinas mecanográficas.
Para melhor ilustrar o que era, então, o meu trabalho e o dos outros "operadores", reproduzo aqui o que li há dias no livro de "Joaquim de Lisboa" (também já por mim citado noutro texto) e que, a propósito das referidas máquinas diz o seguinte:
"...operar uma novíssima, mas muito barulhenta, máquina mecanográfica, da geração que antecedeu o uso generalizado dos computadores...". Estas máquinas mecânicas, eram de tal modo robustas que creio terem sido projectadas para serem operadas a ... murro! ... depois de introduzidos os dados...o desencadear dos cálculos e o seu descarregamento na ficha de cartão entretanto introduzida, era obtido dando uma seca pancada, com a mão em cutelo numa barra de desenho e robustez premeditada, para resistir ao ritmo de trabalho e aos humores do operador."
Ao ler as palavras transcritas revi-me novamente como operador na Contabilidade excutando centenas de lançamentos diários em contas correntes caucionadas. E lembro-me dos "momentos de mau humor" que algumas vezes me levavam a descarregar a má disposição com pancadas ainda mais fortes sobre a barra do "enter"; e não me recordo de alguma vez a dita barra ou a máquina, ela própria, se terem queixado!
E se se tratava de uma máquina defacto barulhenta, mais barulhenta se tornava quando era sujeita à tortura do operador. Imagimem, agora, pelo menos 6 máquinas, concentradas num pequeno recanto, a debitarem "decibéis". Acrescentemos a tudo isto o restante ruído produzido no rés-do-chão e no primeiro andar do Banco funcionando em "open space" , com excepção da secretaria e dos serviços de pessoal, e dos contíguos gabinetes da Direcção e da Administração.
E caras e caros colegas, garanto-vos que não era eu o único que por vezes tratava a NCR com menos meiguice. E tal acontecia, sobretudo, nos dias em que "talvez por cansaço" a mesma entrava em "coma", reclamando a precença do "técnico"...enquanto as malditas livranças, amontoando-se, continuavam à espera!
O trabalho era muito e cansativo sobretudo para quem, diariamente, no final de um dia de trabalho, rapidamente procurava sair porta-fora a caminho da Mutamba donde partia o Machimbombo (que não perdoava atrasos) que me levava ao Bairro do Café, onde ficavam a Escola Comercial Vicente Ferreira e o Instituto Comercial - deixando-me ainda a umas boas centenas de metros - para assitir a mais três ou quatro horas de aulas, que nunca terminavam antes das onze horas da noite. Naquele tempo, na verdade ainda não havia Estudantes-trabalhadores. Eu e outros colegas éramos, Trabalhadores-estudantes!

COISAS DE ANGOLA (3)

Olá meus amigos



Com a devida autorização do RUI LAUREANO SILVA, empregado da Blackwood Dodge, coloco aqui este "post", que toca o BCA e seus ex-colaboradores.
Esta carta foi colocada pelo Rui, no fio da Sanzalangola, BANCO COMERCIAL DE ANGOLA- EX-EMPREGADOS.
Este colega vive em Montreal.



"Olá Amigos.

Não trabalhei no BCA. Apenas passo por aqui para contar uma uma quase anedota que se passou comigo nesse banco e que mostra a seriedade e confiança das gentes naquele tempo.

Estávamos nos anos 59. Tinha acabado (?) os estudos e estava à espera de ir para a tropa. Para não andar a vadiar o meu pai, por intermédio do chefe da contabilidade, seu amigo de longa data, empregou-me na BLACKWOOD DODGE.
Meu primeiro serviço foi aprender a lidar com papeladas de bancos.

Um dia, o Esteves, chefe da contabilidade chamou-me e entregou-me um envelope com 400 contos (disse ele) para eu ir depositar ao BCA. Para mim não era a primeira vez que ia depositar, quer no BCA, quer no Banco de Angola. Enfim, pego a motorizada da casa e lá vou eu.

Chamam o meu número, dou a placa, o talão de depósito e o dinheiro que o funcionário começa logo a contar, com uma destreza que sempre me impressionou.
Chegado ao fim da contagem o caixa diz-me que faltam 20$00. Fiquei um pouco desconcertado, pois era a primeira vez que acontecia. Como era pouco experiente, fiquei a olhar para o caixa que me perguntou o que queria fazer, levar de volta o dinheiro todo, ou pôr 20$ do meu bolso. Procurei nos bolsos mas não chegava. Assim disse ao caixa:

- Olhe eu trabalho para a Blackwood. Nao é longe. Guarde-me aqui o dinheiro que vou buscar os 20$ e volto já.

Isto no sentido de evitar ir novamente para a bicha. Entretanto era quase meio dia.

Cheguei ao escritório e disse:
- Sr. Esteves, faltavam 20$.
- Bom, devo-me ter enganado a contar. Nao faz mal vai-se lá a tarde. Dê-me o dinheiro.
- Eu deixei lá o dinheiro com o caixa.
- E onde está o recibo?
- Não tenho, ele guarda-me o dinheiro até eu levar os 20$.
- O quê?... então você deixa 400 contos com alguém que não conhece? E agora quando lá for se ele disser que não foi com ele ou que não se lembra de si, o que é que você vai fazer. Já viu no buraco em que nos meteu a todos. Sabe quanto são 400 contos? etc, etc. Grande sermão e eu sem poder dizer nada em minha defesa.
- Vá lá depressa buscar o dinheiro, se ele ainda lá estiver. Mas vá a rezar para que não haja problemas.

Só então realizei a o incidente. Eu não conhecia o caixa de lado nenhum, nem me lembrava de o ter visto antes no banco. Lá fui eu na braza, rezando pelo caminho.

Quando lá cheguei vi o caixa, passei pela fila da caixa e com o coração a sair-me pela boca mas tentando mostrar-me calmo, disse para o caixa.

- Olha sabe, eu venho cá à tarde. Dê-me o dinheiro porque vamos fazer um depósito maior.

E o caixa, com a maior das naturalidades, baixou-se e entregou-me aquela pequena fortuna, como se se tratasse de uma carta ou outro qualquer papel...Calmamente saí do banco e só cá fora tive coragem para abrir o envelope comercial e, quando vi lá o dinheiro apeteceu-me dar um berro de contentamento.

Nunca mais esqueci este incidente. Chegado ao escritório, ainda não tinha aberto a boca que o chefe me perguntava:

-TAVA LÁ O DINHEIRO ???

E eu tentando parecer natural:
- Claro que estava. Eu conheço o homem...

- ISSO NÃO SE FAZ NEM COM CONHECIDOS ...

- Naquele tempo havia ainda gente séria. Hoje ainda deve haver também, não sei. Mas eu continuo a confiar nas pessoas..."

domingo, 10 de dezembro de 2006

Luanda aos bocadinhos...


Como pontos de referência, a MUTAMBA e o Estádio Municipal dos Coqueiros.
Localizem-se...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Mais uma mini-história do quotidiano Luandense “ Resposta ingénua a pergunta… ainda mais ingénua”

As flores de papel


Em determinada altura, em Luanda, foi moda a utilização de pequenas flores de papel colorido na decoração interior das casas.

A nossa, obviamente, não foi excepção. Também lá se fizeram algumas composições decorativas com as referidas flores de papel, geralmente adquiridas nas agências funerárias (?!).

Minha mulher, um dia, dirigiu-se a uma agência para comprar as ditas flores.

O empregado apresentou-lhe uma grande variedade, tanto em cores como em formatos.

Foi então que surgiu a pergunta ingénua “ Porque é que os angolanos decoram com tantas flores, e de cores tão garridas, os caixões dos seus mortos?!.

“ É para lhes dar mais vida, minha senhora”! Foi a resposta pronta e convicta do empregado.

Abraço a Todos

BL